🍴 Cartão da Receita
📑 Sumário deste guia
- Ingredientes da rosquinha mineira
- Modo de preparo da rosquinha mineira
- Tempo de preparo e rendimento desta receita
- Como a rosquinha mineira nasceu nas vendas das Estradas Reais
- Variações da rosquinha de polvilho pelo Brasil
- Dicas para a rosquinha ficar estalante
- Como servir e conservar a rosquinha
- Tire suas dúvidas sobre a rosquinha mineira
Atualizado em julho de 2026.
A rosquinha mineira de polvilho azedo é o café da manhã das manhãs frias de julho em São João del-Rei, no Campo das Vertentes mineiro. É um anelzinho pequeno, branco por dentro e estalando por fora, feito de polvilho azedo hidratado com leite e ovos, sem queijo, sem trigo e sem tempo de forno: vai direto para uma panela de óleo bem quente e fica pronta em menos de quinze minutos de fritura, depois de meia hora só de sovar a massa. Serve muito bem como café rápido de julho (com café coado fresquinho e leite quente), como lanche da tarde na lareira, ou como entrada de um almoço de domingo mineiro com tutu à mineira com torresmo, arroz, couve e pavê de chocolate mineiro. É o tipo de receita que a gente aprende com a avó na cozinha de fogo a lenha, exatamente porque não precisa de batedeira nem forma nem forno, e cada família adapta do seu jeito.
Aqui a versão de rosquinha de polvilho azedo é a mais antiga que eu conheço: feita com polvilho azedo (o polvilho que já passou pela fermentação e tem aquele cheiro característico), leite integral morno, ovos caipira, manteiga, sal e uma pitada de açúcar. A textura é o que define o quitute: casquinha fina que trinca de leve, miolo quase oco por causa do ar que a fermentação do polvilho deixa, sabor suave que combina com doce ou salgado. Em São João del-Rei, no fim de semana, é comum comer a rosquinha com requeijão caseiro, com melado de cana ou com goiabada cascão cremosa da Barra Mansa. Em outras regiões mineiras, a mesma receita aparece com nomes diferentes: rosquinha de polvilho, rosquinha de São João, rosquinha de viagem (porque era o que a gente levava quando ia a cavalo até a cidade vizinha).
Ingredientes da rosquinha mineira
| Ingrediente | Quantidade | Observação |
|---|---|---|
| Polvilho azedo | 2 xícaras (chá) | Polvilho já fermentado, com cheiro azedo característico |
| Leite integral morno | 1 xícara (chá) de 240 ml | Em temperatura de bebê, sem queimar o dedo |
| Ovos caipira | 2 unidades médias | Em temperatura ambiente |
| Manteiga sem sal | 2 colheres (sopa) | Em temperatura ambiente para misturar fácil |
| Açúcar refinado | 1 colher (sopa) | A pitada equilibra o sabor sem adoçar a rosquinha |
| Sal fino | 1 colher (chá) rasa | Realça o sabor do polvilho |
| Óleo de soja para fritar | 1 litro | Para imersão completa das rosquinhas |
Rende 20 unidades pequenas (cerca de 20 g cada). Para uma panela de 24 cm, 1 litro de óleo é o suficiente para fritar 6 a 8 rosquinhas por vez sem baixar a temperatura.
Modo de preparo da rosquinha mineira

- Em uma tigela grande de aço ou de plástico resistente, coloque o polvilho azedo e o sal. Misture bem com uma colher de pau para distribuir o sal por todo o polvilho.
- Adicione o leite morno em duas etapas, mexendo com a colher de pau depois de cada adição. A massa começa a ficar pesada e uniforme, mas ainda meio granulosa (é normal).
- Junte os ovos, a manteiga em pedacinhos e o açúcar. Continue mexendo com a colher de pau até a massa ficar homogênea e começar a soltar da tigela (uns 5 a 8 minutos). Ela continua um pouco grudenta na mão, mas já forma uma bola.
- Sove a massa com a mão limpa por uns 8 a 10 minutos até ela ficar elástica, lisa e com bolhas de ar quando você aperta. Esse tempo de sova é essencial para a rosquinha ficar com o miolo oco e a casquinha estalante.
- Cubra a tigela com um pano limpo e deixe descansar por 15 minutos. Enquanto isso, esquente o óleo em uma panela alta: o óleo deve atingir 180 °C (se você não tem termômetro, jogue um pedacinho de massa, ele deve subir à superfície em menos de 10 segundos sem escurecer rápido).
- Com as mãos untadas com óleo (para a massa não grudar), pegue uma bolinha do tamanho de uma noz pequena (cerca de 15 g), enrole entre as palmas formando uma cobrinha e una as pontas para fazer um anelzinho com o buraco do meio cerca do tamanho de uma moeda.
- Encaixe o anel no cabo de uma colher de pau (a forma tradicional mineira) e leve até o óleo quente; assim que o anel soltar da colher, está no ponto certo.
- Frite 6 a 8 rosquinhas por vez para não baixar muito a temperatura do óleo. Quando subir à superfície, abaixe o fogo para médio e deixe dourar por uns 2 minutos de cada lado, até ficar cor de palha clara.
- Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel toalha para absorver o excesso de gordura. As rosquinhas ficam mais crocantes quando servidas mornas, no máximo 30 minutos depois de fritas.
Tempo de preparo e rendimento desta receita
Tempo de preparo: 30 minutos.
Tempo de cozimento: 15 minutos.
tempo total: 45 minutos.
Rende 20 unidades médias (cada uma com cerca de 5 cm de diâmetro, 20 g cada).
Como a rosquinha mineira nasceu nas vendas das Estradas Reais
A rosquinha de polvilho azedo é um quitute que viaja junto com a história do tropeirismo em Minas Gerais. Quando os tropeiros desciam de São Paulo e do Rio de Janeiro até o porto de Paraty no século XVIII, paravam nas vendas do Caminho Novo e da Estrada Real (Caminho do Vento, Caminho do Sul) para comer e descansar. Nesses pontos de apoio, as cozinheiras precisavam de receitas fáceis, sem fermento de padaria, que dessem conta de alimentar muita gente com poucos ingredientes. O polvilho azedo, que já era fermentado naturalmente da mandioca, resolvia dois problemas de uma vez: dispensava o tempo de crescimento da massa e dava uma textura aerada que ninguém mais precisava explicar.
Em São João del-Rei, no Campo das Vertentes (a mesma região que deu origem a outras receitas de polvilho que viraram clássicos da cozinha mineira, como o pão de queijo mineiro tradicional), as negras de ganho e as cozinheiras das fazendas adaptaram o bolinho de polvilho básico para o formato de anel, que fritava mais rápido e fazia mais unidades por panela. A rosquinha fazia parte da merenda das capiaes (pessoas que conduziam gado), do café da tarde das fazendas e do lanche das procissões, junto com o pão de queijo, o bolo de fubá e o angu com torresmo.
Hoje a receita continua viva nas vendas do centro histórico de São João del-Rei (Venda do Felipe, na rua do Rosário), nas cozinhas das fazendas do Campo das Vertentes e nas casas de família em cidades como Tiradentes, São João del-Rei, Barbacena, Resende Costa e Ritápolis. É um dos quitutes mais antigos servidos nas festas juninas e julinas da região, ao lado do bolo de fubá, do quentão e do arroz doce mineiro das noites frias.
Variações da rosquinha de polvilho pelo Brasil
A mesma massa de polvilho azedo aparece em pelo menos quatro versões conhecidas, mudando o formato, o recheio ou o acompanhamento:
- Rosquinha com queijo ralado: em algumas famílias mineiras, junta-se 50 g de queijo minas curado ralado fino na massa na etapa dos ovos. Fica mais amareladinha e saborosa.
- Rosquinha doce com canela e açúcar: ainda quente depois de frita, passa-se na mistura de açúcar com canela em pó (a famosa rosquinha doce de festa). É a versão preferida das crianças em julho.
- Anel de cebola (versão salgada): a mesma massa é modelada como anel, frita e servida quente com maionese temperada, pão com carne ou recheada com carne moída refogada (útil como entradinha).
- Rosquinha da Bahia: no Recôncavo Baiano e em Cachoeira, a rosquinha ganha leite de coco e uma pitada de cominhos na massa, servida com café de coco.
Dicas para a rosquinha ficar estalante
- Polvilho azedo e polvilho doce não são a mesma coisa. Se você trocar um pelo outro, a rosquinha não cresce e fica massuda. Polvilho azedo tem cheiro característico e textura mais fina; polvilho doce é mais branco e sem cheiro.
- O leite morno ajuda a ativar a fermentação natural do polvilho. Muito quente, mata as bactérias que dão o vão; frio, demora demais para sovar. Use a temperatura de um banho de bebê.
- A sova é o segredo do miolo oco. Não economize nos 8 a 10 minutos. Se a massa ficar lisa e elástica, com aquelas bolhas de ar quando você aperta, o resultado vai ser o esperado.
- Óleo na temperatura certa é o segredo da casquinha. Frio, a rosquinha encharca; muito quente, queima por fora e fica cru por dentro. O teste do pedacinho de massa que sobe em 10 segundos é confiável.
- Unte as mãos com óleo ao modelar. A massa gruda menos e o anelzinho sai mais uniforme. Faça todas as rosquinhas antes de começar a fritar, assim elas vão direto do pano para o óleo.
Como servir e conservar a rosquinha
Sirva a rosquinha mineira preferencialmente morna, no máximo 30 minutos após a fritura (depois disso, a casquinha vai amolecendo). O acompanhamento clássico é um café coado fresquinho, mas ela combina muito bem com:
- Café com leite ou café puro coado;
- Chimarrão (versão gaúcha, com queijo minas curado);
- Requeijão caseiro ou queijo minas frescal;
- Goiabada cascão cremosa (receita parecida com o clássico ambrosia mineira de colher);
- Melado de cana com queijo minas (combinação clássica de julho).
Para conservar, espere esfriar completamente (30 minutos), guarde em pote hermético sem empilhar (para não amassar a casquinha) por até 3 dias em temperatura ambiente. Se quiser manter a crocância, esquente em forno baixo (150 °C) por 5 minutos antes de servir. Não recomendo congelar crua porque a textura muda na descongelação e a rosquinha fica borrachuda.
Tire suas dúvidas sobre a rosquinha mineira
Rosquinha mineira leva fermento?
Não, a receita tradicional não leva fermento biológico nem fermento químico. Quem dá o crescimento é a fermentação natural do polvilho azedo, mais a agitação mecânica da sova e o ar que entra na massa. Por isso é tão importante usar o polvilho azedo e não trocar pelo doce.
Posso usar polvilho doce no lugar do azedo?
Tecnicamente pode, mas o resultado é bem diferente: a rosquinha fica mais massuda, menos aerada e com sabor mais neutro. Se for a única opção, adicione 1 colher (sopa) de vinagre de álcool na massa para ajudar na reação, e deixe descansar por 20 minutos antes de sovar.
Preciso mesmo sovar por 8 a 10 minutos?
Sim, a sova longa é responsável pelas bolhas de ar que dão o miolo oco e a casquinha estalante. Se você sovar só 2 ou 3 minutos, a rosquinha sai sem aquela textura clássica. Dá para economizar um pouco usando um gancho de sovar na batedeira planetária, mas o sabor original vem da mão.
Qual óleo usar para fritar?
Óleo de soja é o mais comum e barato, mas óleo de girassol ou óleo de arroz também funcionam bem. Evite azeite de oliva (queima em temperatura alta e dá sabor forte) e manteiga ou margarina (queimam e escurecem rápido). Óleo de canola é aceitável, mas tem ponto de fumaça mais baixo.
Como saber que o óleo está na temperatura certa?
Sem termômetro, faça o teste do pedacinho de massa: jogue um pedaço pequeno da massa no óleo, ele deve subir à superfície em menos de 10 segundos sem escurecer rápido. Se afundar e ficar parado, o óleo está frio; se subir em 2 segundos e escurecer, está quente demais.
Rosquinha mineira é a mesma coisa que sequilho?
Não. O sequilho leva manteiga em grande quantidade e vai ao forno, ficando com aquela textura amanteigada que derrete na boca. A rosquinha mineira é mais aerada, com casquinha estalante, e é frita em óleo. Os dois são quitutes de polvilho azedo, mas a textura e o método são bem diferentes.
Posso fazer a massa na batedeira?
Pode usar o gancho de sovar (em forma de hélice) por uns 6 a 8 minutos. Evite a pá metálica porque esquenta demais a massa e pode ativar o glúten do polvilho de outro jeito. O sabor original da receita vem mesmo da sova à mão, mas na batedeira funciona.
Quantas rosquinhas rende essa receita?
A versão dessa receita rende cerca de 20 unidades médias de 5 cm de diâmetro. Se preferir rosquinhas menores (tamanho de moeda de R$ 1), rende umas 30. Cada rosquinha tem aproximadamente 60 kcal (valor estimado, varia conforme o tamanho e a quantidade de óleo absorvido na fritura).
A rosquinha mineira é o tipo de receita que faz jus ao ditado mineiro de que “a cozinha da roça é o primeiro livro de receitas”. É simples, exige pouco equipamento, serve muita gente em uma manhã fria e aquece a manhã de julho sem pedir muita coisa de volta. Boa receita e bom café.


