🍴 Cartão da Receita
📑 Sumário deste guia
Atualizado em julho de 2026. A canelinha gaúcha é a bebida quente que não pode faltar nas festas julianas da Campanha e da Serra Gaúcha em julho: cachaça envelhecida, casca de canela, cravo, gengibre fresco, açúcar mascavo e uma pitada de erva-doce, tudo fervido em panela grossa por 25 minutos e servido em caneca de louça bem quente. É o quentão sem vinho dos pampas, com origem nos CTGs e nas vindimas de outono do século XIX, e funciona como abre-alas das quadrilhas quando a geada aperta e a fogueira da praça começa a soltar aquela brasa vermelha que ilumina o chimarrão.
Ingredientes da canelinha gaúcha
A receita abaixo rende oito canecas fartas de 250 ml, o que dá para servir uma roda de oito pessoas em volta da fogueira. Use cachaça envelhecida de alambique (a prata fica muito agressiva com a especiaria) e canela em casca, nunca canela em pó, que turva a bebida e deixa gosto residual de terra.
| Ingrediente | Quantidade | Observação |
|---|---|---|
| Cachaça envelhecida | 500 ml | De alambique, 1 a 2 anos de madeira |
| Água filtrada | 1 litro | Para diluir e cozinhar as especiarias |
| Açúcar mascavo claro | 300 g | Daquele bem escuro, cheiro de melaço |
| Casca de canela em pau | 2 unidades de 8 cm | Canela-velha ou canela-do-ceilão |
| Cravo-da-índia (botões inteiros) | 10 unidades | Sem amassar, soltam o óleo aos poucos |
| Gengibre fresco | 60 g | Fatiado fino, com casca, sem amassar |
| Erva-doce em grão | 1 colher de sopa | 5 g, para o fundo anisado |
| Laranja-pera | 1 unidade média | Casca em tirinhas largas, só a parte colorida |
| Limão-galego | 1 unidade média | Casca em tirinhas, só a parte verde |
| Pimenta-rosa (grãos inteiros) | 1 colher de chá | Opcional, mas dá o fundo quente do RS |
| Sal | 1 pitada de sal | Para realçar o dulçor do mascavo |
Modo de preparo da canelinha

- Leve a água ao fogo médio em panela de ferro grossa ou de inox grosso (nunca alumínio fino, que reage com o cravo) junto com a casca de canela, o cravo, o gengibre fatiado, a erva-doce, a casca de laranja e a de limão.
- Quando começar a ferver, abaixe o fogo para médio-baixo e deixe cozinhar em fervura suave por 12 minutos, com a tampa semi-aberta, até a cozinha perfumar de especiaria e a água ficar com cor de chá-escuro.
- Acrescente o açúcar mascavo e mexa bem até dissolver completamente, raspando o fundo da panela com colher de pau para não grudar.
- Deixe ferver por mais 8 minutos em fogo baixo, sem tampa, até o líquido reduzir para cerca de 900 ml e ficar com brilho de calda fina.
- Desligue o fogo, tampe a panela e deixe a infusionação descansar por 5 minutos fora do fogo, para que o cravo e a erva-doce liberem o restante do óleo essencial.
- Acrescente a cachaça envelhecida e a pitada de sal, mexa devagar e prove. Se quiser mais doce, adicione 1 colher de sopa de açúcar mascavo e dissolva; se quiser mais alcoólico, suba a cachaça para 600 ml.
- Coe a canelinha em peneira fina forrada com gaze para reter os fragmentos de cravo e gengibre, e devolva o líquido para a panela limpa em fogo bem baixo só para aquecer (não pode ferver depois da cachaça, senão o álcool evapora e perde a graça).
- Sirva imediatamente em canecas de louça pré-aquecidas com água quente, polvilhando uma pitadinha de canela em pó por cima e colocando uma rodela fina de laranja na borda.
Tempo de preparo: 10 minutos.
Tempo de cozimento: 25 minutos.
tempo total: 40 minutos.
Rende 8 porcoes de 250 ml (canecas).
De onde vem a canelinha gaúcha
A canelinha nasceu como subproduto das vindimas de outono na Campanha Gaúcha, entre Bagé, Dom Pedrito, Santana do Livramento e a fronteira com Rivera (Uruguai), ainda no fim do século XIX. Os tropeiros que levavam mulas carregadas de uva para os armazéns de Pelotas e Rio Grande usavam a cachaça como moeda paralela nas estâncias, e nas noites de frio começaram a perfumar a bebida com casca de canela e cravo, especiarias que chegavam pelos tropeços de mula vindos do litoral catarinense.
A bebida virou patrimônio das festas julianas de Bagé e Candiota, que celebram o inverno entre 13 e 20 de julho com fogueira, quadrilha e chimarrão na beira do rio Candeia. Diferente do quentão de vinho típico do Sudeste, que leva vinho tinto, açúcar e especiarias pesadas, a canelinha aposta na cachaça como base alcoólica e no gengibre fresco como condutor de calor, o que dá uma bebida mais clara, mais seca no copo e com perfume de especiaria mais delicada. Hoje, nos CTGs da Serra Gaúcha, em Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, é comum ver a canelinha servida antes do carreteiro de costelinha, na abertura do baile de inverno.
Em São Borja e em Itaqui, no sudoeste, a versão mais antiga leva ainda uma colher de mel de aroeira, que dá o toque resinoso e amargo que combina com o chimarrão da madrugada e que aparece também nas sobremesas de inverno do Sul. Já na versão uruguaia da festa de la Virgen del Verdún, em Tacuarembó, do outro lado da fronteira, a bebida ganha nome de “canelazo” e leva um toque de vinho tinto, mistura que também aparece em algumas estâncias da fronteira missioneira.
Como escolher a cachaça certa para a canelinha
A cachaça envelhecida é o ingrediente que mais decide o resultado da canelinha. Evite a prata pura (sem envelhecimento), que tem aquele pico agressivo de álcool e deixa a bebida com cheiro de queimado depois de aquecida. O ideal é uma cachaça de alambique envelhecida de 1 a 2 anos em madeira de bálsamo, amendoim, ipê ou carvalho, que já ganhou cor dourada e aquele perfume doce de madeira.
Se você não encontrar cachaça envelhecida na sua cidade, dá para improvisar com uma cachaça premium de qualidade (sem ser industrial) e acrescentar meia colher de sopa de mel de aroeira ou mel silvestre, que ajuda a arredondar o sabor. O detalhe é nunca usar cachaça industrial de coluna, porque o sabor dela domina a especiaria e deixa a canelinha com fundo metálico que lembra remédio.
A quantidade de 500 ml para 1 litro de água dá uma bebida na faixa de 12% de álcool depois do cozimento, que é o ponto certo para esquentar sem derrubar ninguém depois de duas canecas. Se quiser versão sem álcool, troque a cachaça por 500 ml de suco de uva integral (tinto ou branco) e siga o mesmo passo a passo, deixando ferver um minutinho a mais para perder o sabor cru de fruta.
Como servir e conservar a canelinha
A canelinha deve ser servida bem quente, em caneca de louça preta ou branca, daquelas de 250 ml que se usam para chocolate quente de inverno. Pré-aqueça a caneca jogando água quente dentro por 30 segundos, escorra e sirva em seguida, isso evita que a bebida esfrie rápido no frio da noite de julho. O aroma que sobe no primeiro gole é justamente o que faz a diferença, então use caneca com boca larga para o perfume chegar ao nariz.
Sirva com uma rodela de laranja-pera espetada na borda da caneca e, se quiser, um pauzinho de canela como mexedor. Não combine a canelinha com leite condensado (caipira nenhum faz isso na Campanha), mas pode oferecer um prato de pinhões cozidos, nozes ou paçoca de carne ao lado, que combina com o dulçor da especiaria.
A canelinha conserva bem por até 3 dias em garrafa de vidro fechada na geladeira. Para reaquecer, leve ao fogo baixo em panelinha pequena sem deixar ferver. Se sobrar mais de 3 dias, coe de novo, engarrafar e use como calda quente para regar bolo de fubá gelado ou como base para marinada de costelinha assada, o fundo de especiarias combina muito bem com carne suína.
Variações da canelinha pelo Brasil
A versão catarinense da Serra de São Joaquim leva uma pitada de noz moscada ralada na hora e usa cachaça de banana em vez da de cana, o que deixa a bebida mais doce e com perfume de fruta madura. Em Lages e em São Joaquim, no planalto serrano, é servida nas festas do frio de julho com queijo serrano derretido no fundo da caneca, tradição que vem dos tropeiros do Contestado no começo do século XX.
Em Curitiba e em Ponta Grossa, a versão paranaense adiciona uma estrela de anis-estrelado e usa açúcar cristal em vez de mascavo, o que deixa a bebida mais límpida e menos amadeirada. É comum nas festas julianas da Boca Maldita e nos CTGs do Núcleo Santa Maria, sempre acompanhada de pinhão cozido com sal grosso.
Se quiser testar uma versão mais tropical, troque a cachaça por vinho branco seco (300 ml) e reduza a água para 700 ml, ganhando uma canelinha mais leve, que pode ser servida gelada no verão como drinque de festa julina carioca. E se quiser versão kids, basta substituir a cachaça por 500 ml de suco de maçã natural, mantendo todas as especiarias, e fica uma bebida deliciosa que as crianças adoram.
Tire suas dúvidas
Posso usar cachaça branca em vez da envelhecida?
Pode, mas o sabor da canelinha fica bem mais agressivo e o perfume das especiarias quase desaparece por causa do pico de álcool da cachaça branca. O ideal é envelhecida de 1 a 2 anos; se for usar branca, reduza a quantidade para 350 ml e adicione 150 ml de vinho branco seco para suavizar.
Posso fazer a canelinha sem álcool?
Pode, trocando a cachaça por 500 ml de suco de uva integral ou por 500 ml de suco de maçã natural. Nesse caso, deixe ferver 1 minuto a mais depois de adicionar o suco para perder o sabor cru de fruta, e siga o resto do passo a passo normalmente.
Qual a diferença entre canelinha e quentão?
O quentão mineiro leva vinho tinto como base alcoólica e tem corpo mais denso e dulçor mais marcado. A canelinha gaúcha leva cachaça envelhecida e tem corpo mais seco, perfume de especiaria mais delicado e cor mais clara, parecida com chá de canela bem concentrado. As duas são bebidas juninas, mas pertencem a tradições regionais diferentes.
Quanto tempo dura a canelinha pronta?
Em garrafa de vidro fechada na geladeira, a canelinha dura até 3 dias com sabor quase inalterado. Depois disso, o gengibre e a casca de laranja começam a oxidar e deixam a bebida com amargor estranho. O melhor é preparar a quantidade certa para a festa e servir na hora, sem reaproveitar sobras.
Posso usar canela em pó no lugar da casca?
Não recomendo. A canela em pó turva a bebida, deixa um pó no fundo da caneca e dá gosto residual de terra que não combina com a cachaça. A casca em pau (canela-velha ou canela-do-ceilão) solta o óleo essencial aos poucos durante a fervura e dá o perfume limpo que é a marca da canelinha de verdade.
Posso adoçar com mel em vez de açúcar mascavo?
Pode, usando 250 ml de mel de aroeira ou mel silvestre, adicionado depois da cachaça (nunca antes, porque o calor excessivo mata as enzimas do mel e deixa a bebida com fundo amargo). O sabor muda um pouco, fica mais floral e menos rústico, mas combina bem com a versão da fronteira missioneira de São Borja.
Posso preparar a canelinha com antecedência para a festa?
Pode preparar a calda de especiarias (sem a cachaça) com até 2 dias de antecedência e guardar na geladeira. Na hora da festa, é só reaquecer a calda em fogo baixo, adicionar a cachaça e servir. Esse truque economiza muito tempo quando a festa juliana começa às 19h e você tem 30 pessoas esperando.
Qual o tamanho ideal da caneca para servir?
Caneca de louça preta ou branca, boca larga, capacidade de 250 ml. A boca larga ajuda o perfume da especiaria a subir até o nariz no primeiro gole, e a louça mantém a temperatura por mais tempo do que caneca de vidro. Evite caneca de alumínio, que reage com a canela e deixa gosto metálico.
A canelinha combina com quais acompanhamentos?
Combina muito bem com pinhão cozido com sal grosso, paçoca de carne, nozes, castanhas, bolo de fubá caseiro, curau de milho verde e até com chimarrão na sequência. O dulçor da especiaria e o calor do álcool abrem o apetite e preparam o estômago para o carreteiro de costelinha ou para o arroz carreteiro que normalmente vem depois.

