🍴 Cartão da Receita
📑 Sumário deste guia
- Onde nasceu a costelada de chão dos Pampas
- Ingredientes da costelada de chão
- Modo de preparo
- Tempo de preparo e rendimento desta receita
- Como escolher a costela ideal no açougue
- Como servir a costelada com polenta cremosa
- Variações regionais da costelada no Sul
- Como armazenar e reaproveitar a costelada que sobrou
- Tire suas dúvidas
- Receitas que combinam com esta costelada
Atualizado em julho de 2026. A costelada gaúcha de chão é o prato que marca o almoço de domingo nos Pampas quando julho chega com geada: peça inteira de costela bovina com osso, assada lentamente sobre o chão de tijolos do fogão a lenha, coberta apenas com sal grosso, que derrete por horas até separar do osso com o toque de uma colher. A tradição vem dos tropeiros e das estâncias da Campanha Gaúcha.
Onde nasceu a costelada de chão dos Pampas
A história do prato começa nos séculos XVIII e XIX, nas estâncias de criação de gado da Campanha Gaúcha, região que abrange municípios como Bagé, Dom Pedrito, Santana do Livramento, Alegrete e Uruguaiana. Os tropeiros que conduziam as boiadas do Sul até Sorocaba precisavam alimentar-se durante as longas viagens e descobriram que a costela inteira, em peça única com osso, mantinha a suculência mesmo após horas no calor brando das fogueiras feitas no chão de terra batida. O calor subia de baixo para cima, sem chama direta, e o sebo da própria carne, ao derreter, banhava a peça em gordura natural e criava a casca dourada característica.
A técnica se espalhou para os galpões de festa dos CTGs (Centros de Tradições Gaúcheiras), onde a costelada virou rito de encontro de domingo. O sal grosso, usado em quantidade generosa sem outro tempero, puxa a umidade da superfície, forma a crosta e ajuda a concentrar o sabor interno da carne. A versão mais difundida hoje é a do fogão a lenha com chão de tijolos ou terra, mas a técnica de cozinhar devagar, coberta pelo próprio calor que sobe, é a essência do prato. Em Caxias do Sul e Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é comum combinar a costelada com polenta cremosa e vinho tinto da região dos Vinhedos.
Para separar a costelada legítima da costela assada comum, três sinais não falham: peça cortada com todos os ossos juntos, em peça única, sem partir a costela em pedaços menores; carne cozinhando sobre superfície que reflete calor, nunca sobre grelha suspensa; tempo longo, várias horas, com calor brando e constante. Esses três juntos formam o que os gaúchos chamam de “costelão bem feito”.
Ingredientes da costelada de chão

| Ingrediente | Quantidade | Observação |
|---|---|---|
| Costela bovina inteira (peça com osso) | 3 kg (aproximadamente) | Peça única, com todos os ossos juntos, capa de gordura externa |
| Sal grosso | 300 g | Sal grosso para churrasco, nunca refinado |
| Lenha de espinilho ou eucalipto | 8 a 10 kg | Lenha seca, sem resina, idealmente de origem nativa |
| Água | 500 ml | Para umedecer a brasa no início e controlar o calor |
| Polenta cremosa (acompanhamento) | 500 g de fubá | Fubá médio, cozido em água e sal até cremoso |
| Chimichurri (acompanhamento) | 1 maço de cheiro-verde | Salsinha, orégano, alho, vinagre, azeite, sal e pimenta |
| Cebola para assar na brasa | 4 unidades grandes | Para acompanhar a carne no prato |
Sobre a carne: a peça ideal vem do corte chamado costela do dianteiro, com camada generosa de gordura e osso. Evite costela bovina traseira para esta técnica, porque a peça do dianteiro tem mais gordura entremeada e suporta melhor as horas de calor brando. Se não encontrar peça inteira pronta no açougue, peça para o açougueiro manter a peça inteira com osso, sem remover a manta de gordura externa.
Modo de preparo
- Prepare o fogão a lenha cerca de 2 horas antes de colocar a carne: acenda a lenha no lado oposto ao local da carne, deixe formar brasa e confirme que o chão de tijolos está morno ao toque (calor brando, sem chama).
- Tempere a peça de costela apenas com sal grosso, distribuindo por todos os lados. A gordura da carne é o tempero principal e não precisa de mais nada.
- Coloque a peça diretamente sobre o chão de tijolos do fogão a lenha, com o lado do osso para baixo e a gordura para cima, em posição central onde o calor reflete uniforme.
- Tampe o fogão com a chap de ferro ou deixe a boca fechada, mantendo o calor circulando ao redor da carne sem chama direta.
- Acrescente pequenas quantidades de lenha a cada 30 minutos, mantendo temperatura constante e branda. O ar dentro do fogão deve estar quente, mas a carne não pode tostar.
- A cada 1 hora, regue a peça com a própria gordura que escorre no chão usando uma concha, retornando o caldo sobre a carne.
- Mantenha o cozimento por 6 a 8 horas, verificando o ponto: a carne deve estar tão macia que solta do osso com a pressão suave de uma colher de pau.
- Nos últimos 30 minutos, retire qualquer excesso de gordura do chão ao redor da peça para permitir formação de crosta dourada na superfície.
- Sirva a costelada ainda no fogão, puxando a carne do osso na frente dos convidados,acompanhada de polenta cremosa, chimichurri fresco e cebola assada na brasa.
- Para o almoço, ofereça também vinho tinto da Serra Gaúcha e, depois do prato principal, sagu com creme ou ambrosia para a sobremesa.
Tempo de preparo e rendimento desta receita
Tempo de preparo: 30 minutos.
Tempo de cozimento: 480 minutos.
tempo total: 510 minutos.
Rende 8 porções fartas, ideal para almoço de domingo em família nos Pampas.
Como escolher a costela ideal no açougue
Antes de comprar a peça, vale conferir três sinais que diferenciam a costela certa para a técnica de chão da costela de churrasqueira comum. O primeiro é a camada externa de gordura: peça com pelo menos 1 cm de gordura externa, sem estar amarelada ou com odor rançoso (sinal de carne mal conservada). O segundo é o osso: peça cortada em peça única, sem separação entre os ossos, mantendo a estrutura que distribui o calor de forma regular. O terceiro é a cor da carne: vermelho-vivo, com nervuras de gordura branca entremeada, indicando animal adulto bem alimentado.
No Rio Grande do Sul, peça no açougue a “costela para costelão de chão”. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o corte equivalente costuma aparecer como “costela inteira” ou “costelão”. Se o açougueiro perguntar, explique que a peça vai para cozimento lento de muitas horas, isso ajuda na escolha do corte certo.
Como servir a costelada com polenta cremosa
O acompanhamento tradicional da costelada de chão nos Pampas é a polenta cremosa cozida em água e sal, servida em prato fundo onde a carne é puxada do osso por cima. A proporção clássica é meio prato de polenta e meio prato de carne desfiada, com chimichurri fresco por cima e a cebola assada na brasa ao lado. A polenta cremosa pede 500 g de fubá médio em 1,5 litro de água com sal, mexendo sempre até engrossar; o ponto é quando cai da colher de pau em movimento contínuo, sem talhar. O chimichurri leva salsinha, orégano fresco e alho crus picados, vinagre de vinho tinto, azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora, com 30 minutos de descanso antes de servir. A cebola assada vai embrulhada com casca em papel alumínio, entre as brasas por cerca de 40 minutos, ficando macia e levemente adocicada.
Em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é comum servir a costelada com fio de azeite de oliva extra virgem da região e queijo colonial ralado por cima da polenta. Em Bagé, na Campanha, o costume é acompanhar com farofa de ovos e chimichurri bem carregado no alho.
Variações regionais da costelada no Sul
A costelada muda um pouco em cada estado do Sul, mantendo a técnica de fundo mas variando acompanhamentos e cortes. No Rio Grande do Sul, na Campanha, a versão mais tradicional usa peça inteira do dianteiro, sal grosso e polenta cremosa; alguns CTGs servem com feijão campeiro e farofa de ovo. Em Santa Catarina, no Oeste, a peça costuma ser costela do traseiro, mais enxuta, com molho de cebola caramelizada e pirão do caldo que escorre durante o cozimento. No Paraná, em Palmas, a tradição é adicionar alho-poró e louro junto do sal grosso, cozinhar a peça envolta em manta de vegetal para preservar a umidade, e servir com cuca salgada de fubá.
Como armazenar e reaproveitar a costelada que sobrou
Se sobrar carne depois do almoço, três caminhos clássicos para aproveitamento. O sanduíche de costela pica a carne fria, aquece com cebola na frigideira e monta no pão de cacetinho com chimichurri. A omelete de costela desfia a carne, mistura com ovo batido, cebola e cheiro-verde, leva à frigideira até firmar, ótima para o café da manhã seguinte. O arroz de costela cozinha o arroz no caldo que escorreu do cozimento após desengordurar, com a carne desfiada e cheiro-verde no fim.
Armazenamento: guarde a carne desfiada em pote de vidro fechado, na geladeira, por até 3 dias. Para congelar, distribua em porções e embale em saco zip por até 30 dias. Descongele na geladeira, nunca em temperatura ambiente, e reaqueça com um fio de água para não ressecar.
Tire suas dúvidas
Posso fazer a costelada de chão em forno de casa, sem fogão a lenha?
Sim, dá para adaptar a técnica usando forno doméstico comum, com a peça em assadeira funda forrada com papel alumínio e sal grosso espesso no fundo. A temperatura fica entre 140 e 160 graus, e o tempo varia de 6 a 7 horas, com rega a cada 1 hora. O sabor não fica idêntico ao do fogão a lenha, porque falta o aroma da queima da lenha, mas a textura da carne sai próxima da original.
Qual a diferença entre costela bovina e costelinha de porco para esta receita?
A costela bovina é a peça grande do dianteiro do boi, com ossos longos e muita carne entre eles, ideal para cozimentos longos como a costelada. A costelinha de porco é menor, mais gordurosa e cozinha em menos tempo, sendo usada para pratos como a costelinha ao molho barbecue. Para a costelada de chão, use sempre costela bovina inteira.
O sal grosso não fica salgado demais na carne?
Não, se usado na proporção certa. O sal grosso puxa a umidade da superfície da carne e forma uma crosta protetora, mas não penetra profundamente na peça. Por isso a tradição é cobrir toda a superfície com uma camada generosa; o que sobra no chão pode ser descartado no final. Se preferir mais controle, tempere 1 hora antes de colocar no fogão e retire o excesso antes de levar ao calor.
É possível usar carne congelada para a costelada?
Não é o ideal, porque a carne congelada perde umidade ao descongelar. O ideal é comprar a peça fresca, deixar na geladeira por 12 horas antes do preparo, e tirar da geladeira 1 hora antes de assar. Se precisar congelar, faça antes de temperar e descongele em geladeira por 24 a 36 horas.
Como saber o ponto exato da carne sem cortar na peça inteira?
O sinal clássico é a carne soltar do osso com a pressão suave de uma colher de pau. Se ainda estiver firme, deixe mais 30 a 60 minutos no calor brando. Outro teste válido é espetar um garfo longo na parte mais grossa da carne: se entrar e sair sem resistência, está no ponto. Evite cortar a peça para conferir, porque a abertura libera umidade da carne.
Posso preparar a costelada de chão em apartamento?
Tecnicamente é possível, mas não é recomendado em ambientes fechados por causa da fumaça e do cheiro forte de lenha que impregna o local por dias. Em apartamento, o caminho mais seguro é adaptar a técnica para forno doméstico ou churrasqueira a gás com a peça em assadeira tampada, mantendo o cozimento lento. O sabor fica próximo, sem o incômodo da fumaça.
Qual a melhor bebida para acompanhar a costelada de julho?
A combinação clássica é vinho tinto da Serra Gaúcha, especialmente um Cabernet Sauvignon ou Merlot da região dos Vinhedos, em temperatura de 16 a 18 graus. Para quem prefere cerveja, vá de malte encorpado tipo IPA ou Schwarzbier, que combina com a gordura da carne. Chimarrão gelado antes do almoço é praticamente obrigatório em qualquer costelada gaúcha de verdade.
Quanto tempo antes preciso começar a lenha para a costelada?
Acenda a lenha 2 horas antes de colocar a carne no fogão, para garantir que a brasa esteja firme e o chão de tijolos bem aquecido. Se a lenha for de espinilho, que é mais densa, pode exigir 1 hora a mais até formar a brasa ideal. Teste a temperatura encostando a mão na superfície: se aguentar 3 segundos com a mão espalmada, está no ponto certo para receber a carne.
Receitas que combinam com esta costelada
Para completar o almoço de domingo no estilo gaúcho de julho, vale servir a costelada ao lado de outras receitas que reforçam o tema de inverno nos Pampas. O caldo de mocotó cremoso à mineira entra como entrada reconfortante no mesmo padrão de cozimento lento no fogão. Para acompanhar a carne vermelha sem perder o acento regional, o feijão tropeiro mineiro da roça rende bem com polenta cremosa igual à da costelada. Para fechar o almoço, a rabanada mineira tradicional cumpre o papel de doce quente, especialmente servida com café passado na hora.


