🍴 Cartão da Receita
📑 Sumário deste guia
Atualizado em agosto de 2026. Mugunzá salgada com carneiro é o cozido cremoso de milho branco e carneiro (ou bode) que sustenta o almoço de domingo de agosto no Sertão nordestino, servida em panelão de alumínio no fogo a lenha ao lado de arroz branco, pirão de carne e farofa de cebola. A versão doce de mungunzá, com leite condensado, é mais conhecida nas festas juninas, mas a versão salgada, mais rústica, é o que sai nos almoços de meio de ano da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Paraíba, principalmente nas regiões do Sertão do Pajeú, do São Francisco e do Recôncavo. Aqui vai o passo a passo regional com carneiro, milho branco, leite de coco, cheiro-verde e um toque de cachaça de alambique, pronto em cerca de 90 minutos de panela (mais 12 horas de molho do milho e do carneiro).
Ingredientes do cozido de mugunzá salgada com carneiro
| Ingrediente | Quantidade | Observação |
|---|---|---|
| Carneiro ou bode (pernil ou paleta com osso) | 1,2 kg | Equivalente a 1 peça grande com osso, cortada em cubos de 5 cm |
| Milho branco para canjica (seco) | 500 g | Deixe de molho em água fria por 12 horas antes do cozimento |
| Caldo de carne ou água | 2,5 L | Suficiente para cobrir a carne e o milho com folga de 3 dedos |
| Leite de coco natural | 400 ml | Equivalente a 2 xícaras de chá, da fruta fresca ou da garrafa boa |
| Cebola média | 200 g | Equivalente a duas cebolas médias, picadas em cubos pequenos |
| Alho | 20 g | Equivalente a 4 dentes médios, picados ou amassados |
| Tomate maduro | 150 g | Equivalente a um tomate grande, sem sementes, picado em cubos |
| Pimentão verde | 80 g | Equivalente a meio pimentão, em cubos pequenos |
| Cheiro-verde (coentro + cebolinha) | 30 g | Equivalente a um maço pequeno, picado fino |
| Folha de louro | 2 g | Equivalente a 2 folhas, secas ou frescas |
| Cachaça de alambique | 30 ml | Equivalente a 2 colheres de sopa, para flambar a carne antes do cozimento |
| Sal grosso | 25 g | Ajustar ao paladar; carneiro aceita bem o sal mais firme |
| Pimenta-do-reino (opcional) | 3 g | Equivalente a 1 colher de chá, moída na hora |
| Colorau (urucum) | 4 g | Equivalente a 1 colher de chá, para dar cor avermelhada |
| Óleo de soja ou azeite de dendê (opcional) | 30 ml | Equivalente a 2 colheres de sopa, para refogar a base |
Modo de preparo da mugunzá salgada com carneiro

O cozimento tradicional leva cerca de 1 hora e 30 minutos na panela de pressão, depois o refogado e uns 20 minutos no fogão a lenha para terminar o cremoso. Use panela de pressão grande (pelo menos 6 L) para acomodar a carne e o milho sem entornar.
- Escorra o milho branco que ficou de molho por 12 horas e reserve. Jogue fora a água do molho, que solta impurezas e deixa o sabor mais carregado.
- Em uma panela de pressão, coloque a carne de carneiro cortada em cubos, cubra com água, adicione uma pitada de sal e leve ao fogo alto. Quando levantar fervura, desligue, escorra e lave a carne em água corrente. Este processo, chamado de dessangrar, tira o excesso de gordura e o cheiro forte que o carneiro tem nas carcaças mais velhas.
- Volte a carne para a panela de pressão, junte o milho branco escorrido, a folha de louro, metade da cebola picada e 2 L de água. Tampe e cozinhe em fogo médio por 50 minutos após pegar pressão (a válvula começa a chiar). Desligue, espere a pressão sair naturalmente e abra.
- Enquanto a carne e o milho cozinham, prepare o refogado. Em uma frigideira grande ou na própria panela de barro, aqueça o óleo de soja ou o azeite de dendê em fogo médio. Junte a cebola restante, o alho, o pimentão e o tomate, e refogue por 8 minutos até a cebola ficar translúcida e o tomate desmanchar.
- Acrescente a carneiro cozido com o milho ao refogado, junte o leite de coco, o colorau, o cheiro-verde, a pimenta-do-reino e ajuste o sal. Cozinhe em fogo baixo por mais 20 minutos, mexendo de vez em quando para o creme do milho engrossar e o caldo virar um ensopado grosso.
- Na hora de servir, aqueça a cachaça em uma concha, incline a concha sobre a panela e incline a chama de um fósforo até a chama azul subir por 2 segundos. Flambe com calma e desligue o fogo. A flambagem dá o perfume de alambique que diferencia a mugunzá nordestina do cozido de milho comum.
- Prove, ajuste o sal e a pimenta e sirva no próprio panelão, com arroz branco, pirão de carne do caldo, farofa de cebola e rodelas de limão para quem quiser apertar o prato.
Tempo de preparo e rendimento
Tempo de preparo: 30 minutos.
Tempo de cozimento: 90 minutos.
tempo total: 120 minutos.
Rende 6 porções generosas (acompanha arroz, pirão e farofa).
Origem e variações regionais da mugunzá salgada
A mugunzá (ou mungunzá, mugunzá, mungunzá) tem origem ligada ao milho branco de canjica introduzido no Sertão nordestino ainda no período colonial, com registros de cozidos cremosos com carne ou peixe desde o século XVIII em fazendas do Sertão do Pajeú, em Pernambuco, e do Sertão Sergipano do São Francisco. A versão doce, com leite, leite condensado e canela, virou a cara das festas juninas do Nordeste, mas a versão salgada, mais antiga, é o que sustenta o almoço de domingo de agosto nas casas de farinha do interior. Cada estado tempera a seu modo: em Pernambuco e Paraíba, entra com carneiro e leite de coco. Na Bahia, no Recôncavo, a mugunzá sai com carneiro, leite de coco e dendê. Em Sergipe, no alto sertão, a carne de bode com quiabo é a versão mais rústica. No Piauí, o cozido de mugunzá com carne de sol e queijo coalho ganha o almoço de domingo.
Acompanhamentos clássicos para servir com a mugunzá
O panelão de mugunzá salgada pede três acompanhamentos que ninguém dispensa no almoço de domingo: o arroz branco solto, o pirão de carne engrossado com o caldo do cozimento e a farofa de cebola dourada na manteiga da terra. O queijo coalho assado na brasa entra na versão baiana. Em Pernambuco, é comum servir o cozido com rodelas de cebola roxa crua e molho de pimenta malagueta com cachaça. No Piauí, o pirão de leite com carne de sol desfiada vira o segundo prato principal. A combinação mais pedida no Sertão do Pajeú é, sem dúvida, mugunzá com arroz, pirão, farofa e um copo de cachaça de alambique gelada para digestão.
Conservação e como reaproveitar a mugunzá
A mugunzá salgada com carneiro dura até 3 dias bem coberta na geladeira, em pote de vidro com tampa, porque o milho branco absorve o sal e o sabor do creme fica mais encorpado no dia seguinte. Para congelar, espere esfriar completamente, distribua em porções de 300 g em saquinhos próprios para freezer e congele por até 60 dias. Na hora de reaquecer, coloque a porção em uma panela com 2 colheres de sopa de água, leve ao fogo baixo e mexa até o creme voltar à textura original. O reaproveitamento mais comum é transformar a sobra em recheio de torta de liquidificador, misturando a mugunzá com requeijão cremoso e espalhando sobre a massa. Também rende um bolinho de chuva frito em óleo quente, empanado em farinha de trigo e ovo, que no interior é conhecido como bolinho de mugunzá nordestino.
Veja também: o baião de dois nordestino com feijão-fradinho e paio, o carneiro guisado à nordestino com baião de dois e queijo coalho, o arrumadinho pernambucano com carne seca e queijo coalho, o arroz de leite salgado com carne de sol e a panelada cearense com arroz e pirão, todos pratos que respiram a mesma mesa nordestina.
Tire suas dúvidas
Posso substituir o carneiro por outra carne?
Sim, a mugunzá aceita carneiro, bode ou mesmo costelinha suína salgada. A versão mais rústica do Sertão usa carne de bode inteira, com osso, que fica mais cremosa depois de 90 minutos de panela de pressão. A costelinha suína dá uma textura mais gordurosa, mas funciona bem para quem não tem acesso fácil ao carneiro. O tempo de cozimento pode variar conforme o corte, então sempre confira com um garfo se a carne está se desfazendo antes de servir.
Preciso deixar o milho de molho mesmo?
Sim, o molho de 12 horas é importante para o milho branco amolecer e cozinhar de forma homogênea com a carne. Se você colocar o milho seco direto na panela de pressão, ele pode ficar duro mesmo depois de 90 minutos de cozimento. Em emergência, dá para cozinhar o milho sozinho na pressão por 20 minutos antes de juntar à carne, mas o sabor não fica tão cremoso quanto o do milho hidratado na água fria.
A mugunzá pode ser feita sem leite de coco?
Pode, fica uma versão mais rústica e menos aromática, que é a que muitos sertanejos ainda fazem para o dia a dia. O leite de coco entra nas versões de festa, do Recôncavo Baiano e de Pernambuco, e dá o perfume doce que distingue a mugunzá nordestina do cozido de milho branco comum. Se for usar, prefira o leite de coco natural em garrafa de vidro, com cerca de 60% de gordura, que rende mais sabor do que o de caixinha.
Como tirar o cheiro forte do carneiro?
O truque mais usado no Sertão é escaldar a carne em água fervente com cebola, folha de louro e um punhado de hortelã, escorrer e lavar em água corrente antes de levar à pressão. O processo puxa o sangue e a gordura que deixa o cheiro mais ativo. Tudo isso é o que chamam de dessangrar o carneiro. Outra opção é marinar a carne em vinagre de maçã com alho por 2 horas na geladeira antes de cozinhar, mas o sabor azedo pode puxar demais.
Posso fazer a mugunzá na panela comum em vez da pressão?
Pode, mas o tempo de cozimento sobe para 2 horas e 30 minutos no total, e a carne fica menos macia se não for mexida de vez em quando. A vantagem da panela de pressão é que o vapor força a carne a se desfiar sozinha. Se for usar panela comum, mantenha o fogo baixo, adicione 1 L de água a mais e complete o caldo aos poucos, sempre mexendo para o milho não grudar no fundo.
Qual a diferença entre mugunzá salgada e mungunzá doce?
A mugunzá salgada é o cozido de milho branco com carneiro ou bode, temperado com cebola, alho, tomate, leite de coco e cheiro-verde, servido como prato principal no almoço de domingo. A mungunzá doce é a sobremesa de festa junina feita com o mesmo milho branco, mas com leite, leite condensado, açúcar, canela e cravo, servida em caneca como mingau de madrugada. As duas receitas usam a mesma base de milho, mas separam-se depois por completo em sabor, ocasião e função.
Esse prato é típico de qual região do Brasil?
A mugunzá salgada é típica do Sertão nordestino, com registros clássicos em Pernambuco (Sertão do Pajeú), Bahia (Recôncavo, Sertão do São Francisco), Sergipe (Alto Sertão), Paraíba (Sertão do Cariri paraibano) e Piauí (Sertão de Picos). É um prato de fazenda e de mesa de domingo, e aparece ainda em restaurantes regionais do Centro-Oeste, principalmente em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde os tropeiros nordestinos espalharam a receita no século XIX.
Qual a melhor cachaça para flambar a mugunzá?
A cachaça de alambique, envelhecida em madeira, é a melhor opção porque a flambagem degluti os aromas e reduz o álcool rapidamente. As cachaças industrializadas, mais duras, podem deixar um sabor residual no cozido. Se for usar cachaça industrial, flambe rapidamente e reduza o fogo na hora, ou troque a flambagem por adicionar a cachaça direto no refogado e deixar evaporar por 2 minutos antes de entrar o milho cozido.
Posso adicionar quiabo na mugunzá?
Sim, o quiabo entra na versão sergipana do alto sertão, cortado em rodelas e refogado com a cebola e o alho antes de juntar a carne. O quiabo dá um toque mucilaginoso que engrossa o creme e combina bem com o sabor do carneiro. Para reduzir a baba do quiabo, refogue-o separado em óleo bem quente por 5 minutos antes de misturar ao cozido, ou use 1 colher de sopa de vinagre na água de cozimento.
Qual a melhor forma de servir a mugunzá para um almoço de domingo?
Sirva no próprio panelão de alumínio, recém-saído do fogo, com a toalha de mesa de chita, o arroz branco em travessa separada, o pirão de carne em cumbuca de barro, a farofa de cebola em tigela de esmalte e as rodelas de limão em prato de louça. A montagem clássica do Sertão leva ainda um pote de pimenta malagueta em conserva e um jarro de cachaça de alambique. Tudo posto na mesa, em família, com o tempo que o almoço nordestino pede.

